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Quem é o/a protagonista do filme "Meu pai"?

Numa sexta-feira ordinária, deitada no sofá, ao som da abertura do streaming Netflix , "minha lista favorita cerebral" levou-me ao título "Meu pai". Protagonizado pelo maaraaaavilhoso Anthony Hopkins, o longa concorreu, em 2021, a 6 indicações ao Oscar (incluindo melhor filme) com a conquista da estatueta para melhor ator (Hopkins) e roteiro adaptado (da peça Le Pére, escrita por Florian Zeller). Justo!

Pois é... depois de mais de 4 anos em standby nas escritas cinéfilas a este blog algo a(s)cendeu o desejo de retorno que tentarei colocar aqui.

A começar pelo título. Já sabemos que, de antemão em Psicanálise, filiações não se apresentam como meros assuntos (não propriamente pelos personagens da novela familiar, mas naquilo que os incide e que na relação com o outro, mediados pelo real, causa o sujeito) Enfim... o pai está lá como protagonista do enredo juntamente com sua filha (a atriz Olivia Colman) entre outros.

Assim, é preciso destacar que, neste artigo, peço licença, Anthony não é o protagonista, pois há um dado que não podemos negar quando se trata das viradas da vida e que fazem mote também do enredo. Aqui temos a doença de Alzheimer, a protagonista que agoniza.

O cinema tem dessas coisas mágicas: tecer escrita, sentimentos, povoações de pensamento.

Levanto meu argumento de colocar juntamente ao pódio esse real que devastou lentamente o tecido neural. Ei-lo: pela construção do enredo que se apresenta inteiramente sob a sua ótica e pelos seus efeitos nos laços e no proprietário da carne.

Com certa maestria, o roteiro vem causar, em seus primeiros minutos, a queda da certeza das linearidades. Aos poucos, com pitadas de ambientação de agudos de música clássica (carregando em si o drama do imponderável!), o telespectador vai concluindo que algo acontece com aquele senhor de mais de 80 anos, ao colocar o garfo dentro do paletó, preservando o ato, porém, apenas a base de objeto (garfo) e não o objeto em si (caneta) e também na construção das cenas que se repetem. Tudo vira uma espécie de caleidoscópio na tela, no giro de seus elementos (o cenário, os atores, os diálogos, as pausas, o tempo da narrativa).

Aliás o tempo... o tempo lindamente traduzido pelo relógio de pulso que vira também um joguete trágico da condição. O tempo se perde sem querer perder, o tempo se descola da referencia de variantes de localização, com o tempo as folhas caem.

E nessa condição, onde sabemos que os laços são permeados por lógicas, referencias discursivas compartilhadas e vivenciadas, de uma seguridade que nos esforçamos em manter, esse furo do real vem convocar forçosamente um quebrar também dessa suposta linearidade das relações. Tomar novamente a construção de laço, suas representações de amor, sendo esta, uma possibilidade de regeneração diante dessa degeneração.

Quem já conviveu de perto com essa incidência, certamente, saberá disso. Cada um faz sua jornada dentro das possibilidades, dentro do que há no tempo das incertezas, do afeto, da disponibilidade e possibilidade de enfrentamento com esse difícil protagonista, sem óscar, mas que faz o filme e a vida se moverem, como peças de um quebra-neurônio-cabeça pela falta de previsibilidade (a ciência está ai tb para mexer nisso, lembremo- nos!), por muitas vezes, sem a palavra que traduza, apenas o vento que bate as folhas ao despertar a finitude.



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