Sonhar é Imaginar Dormindo

Enquanto dormimos nosso corpo se regenera e se prepara para um novo dia. Enquanto dormimos também sonhamos, quase que invariavelmente.
Para a mitologia grega, dormir só era possível com a permissão de Hypnos, o Deus do Sono. Ele se deitava sobre as pálpebras dos humanos lhes permitindo descanso restaurador. Morpheus, um de seus mil filhos, se encarregava de criar sonhos em quem dormia, e Phantasia, sua filha, criava sonhos em quem estava acordado(a). Seu irmão gêmeo  Thanatus, enquanto isso, Deus da Morte, pairava sobre a superfície.
Em A Interpretação dos Sonhos, Freud descreve que a função primordial do sonho é ser guardião do sono. Para os gregos também! Morpheus, Deus do Sonho, dos filhos de Hypnos era seu principal auxiliarquem cuidava para que nada o acordasse. 

Hypnos

 

Em um hipnograma pode-se observar a distribuição das fases do sono ao longo de uma noite. O slide ilustra a distribuição esperada em um sono dito normal. Na primeira metade da noite ocorrem mais episódios de sono de ondas lentas (N3), em que há uma lentificação e maior sincronização na atividade elétrica cerebral. Na segunda metade, há mais episódios de sono REM, que, em oposição ao sono Não REM, apresenta ritmos elétricos mais rápidos e dessincronizados.

Um "sono normal" se divide em ciclos de aproximadamente 90 minutos que costumam se repetir entre 4 e 6 vezes ao longo de uma noite. Em cada ciclo passamos por diferentes estágios e fases que compõem nossa arquitetura do sono.
 
Em um experimento com indivíduos saudáveis, em que eram acordados durante os diferentes estágios do sono, perguntava-se a eles se estavam ou não sonhando.
Aquele em que os indivíduos mais se lembravam de estar sonhando foi o REM (do inglês, Rapid Eye Movement), quando temos surtos de movimentos rápidos dos olhos, como se estivéssemos vendo o que sonhamos. Apesar de sonharmos em todas as fases do sono, durante o REM o sonho adquire um valor simbólico, por vezes bizarro.
 
Acredita-se que as fases do sono têm diferentes funções para o organismo. O sono REM parece ter um papel organizador para nossa memória. É quando o cérebro escolhe quais memórias armazenar e quais apagar, principalmente a memória emocional. Há o que se chama de processamento onírico, quando tudo o que foi vivenciado durante a vida em vigília, todos os pensamentos e sentidos (olfativos, visuais, auditivos, sensoriais) são condensados a um grande emaranhado de imagens, como 'representações' por símbolos, de imagens conectadas por palavras significantes.
Experimentos em animais e em humanos demonstram que a falta de sono REM dificulta a aprendizagem e a retenção de memória. Ratos privados de sono REM por vários dias acabam morrendo.
Uma curiosidade interessante é que durante o REM, o cérebro manda um comando de bloqueio para toda a musculatura do corpo, o que significa que não podemos atuar nossos sonhos por aí, pois estamos em atonia muscular.
Vídeo original de: https://youtu.be/yfK-jCrT4No
Quando a atonia não acontece, pode ser um sinal de distúrbio comportamental do sono REM, que deve ser investigado.
Sonâmbulos "atuam" seu conteúdo onírico por aí,  porque os episódios acontecem no sono de ondas lentas (N3), e os indivíduos não se lembram de sonhar, o que é um critério para diagnosticar sonambulismo e uma forma para diferenciá-lo do   distúrbio comportamental do sono REM,  outra forma é observar se os eventos ocorrem mais no começo ou no final do período de sono. Ambos são classificados como  PARASSONIAS DO SONO.
 

Parassonias são alterações em COMPORTAMENTOS, PERCEPÇÕES, SONHOS OU MOVIMENTOS, observadas durante o sono.  Algumas das mais conhecidas são:

 

PARASSONIAS DO SONO NREM

Sonambulismo, Terror Noturno

Síndrome do Comer Noturno 

PARASSONIAS DO SONO REM

Distúrbio Comportamental do Sono REM 

Paralisia do Sono, Pesadelos

DISTÚRBIOS DO MOVIMENTO

Pernas Inquietas, Bruxismo do Sono

Mioclonia Benigna da Infância

O BRUXISMO (ranger ou apertar os dentes), como a maioria das parassonias, é mais comum na infância, mas também ocorre em adultos. Nem sempre a pessoa sabe que tem bruxismo, alguém que ouve o ruído do esfregar dos dentes.

O principal sinal é a sensação de cansaço na face ou dores de cabeça ao acordar. Se associa a uma série de fatores, como problemas ortodônticos, gastrointestinais, como o refluxo, ou mesmo o estresse. Os eventos costumam ser esporádicos, mas se frequentes, devem ser avaliados por um dentista especialista, para preservar os dentes que podem se desgastar seriamente. As dores também podem ser horríveis e levar à sensação de sono não reparador, ou cansaço ao acordar.

 

Quem tem INSÔNIA sente INSATISFAÇÃO CONTÍNUA com a quantidade ou a qualidade do sono.

Vivencia com frequência dificuldades para dormir - por demorar mais de 30 minutos para pegar no sono após se deitar, por despertar muitas vezes durante o período de sono, ou acordar antes do horário desejado, sem conseguir retomar o sono facilmente.

A insônia clinicamente relevante é crônica ou recorrente - ocorre três ou mais vezes por semana e persiste por três ou mais meses -, prejudica o funcionamento físico e mental, causa irritabilidade, déficit cognitivo, sensibilidade à dores, e vulnerabilidade à doenças.

DORMIR POUCO CRONICAMENTE - para a maioria das pessoas isso significa dormir um tempo menor do que 6 horas por dia -, além de afetar negativamente as emoções, o humor e os sistemas de defesa do organismo, atrapalhar o desempenho acadêmico ou profissional, também aumenta o risco de acidentes.

O sono insuficiente confere um impacto significativo e iminente à saúde geral, muitas vezes silencioso, pois pode demorar a se manifestar, e por isso as pessoas costumam "empurrar com a barriga" esse problema.

Leia mais mais sobre a insônia.  

 

Às vezes, a insatisfação com o sono não é insônia, e nem sempre a insônia é o motivo para que se durma menos do que 6 horas, por isso é muito importante que seja feito o diagnóstico diferencial.

Quando não se dá OPORTUNIDADE ADEQUADA ao sono, por FALTA DE TEMPO OU POR EXCESSOS -  compromissos, vícios ou hábitos que desorganizam a rotina e impedem a higiene ou ritual do sono - então, chamamos de restrição voluntária de sono ou de insônia por higiene inadequada.

Confira a seguir a diferença entre privação, restrição e fragmentação do sono.

Quem sente que só se adapta e funciona bem com horários específicos, ou no período da manhã ou só mais a noite, pode ser que sofra de um distúrbio de ritmo. Chamamos vespertinos extremos quem tem um 'ATRASO DE FASE' para iniciar o sono, e de matutinos extremos os que tem um 'AVANÇO DE FASE' ou adiantamento do período de sono.

A maioria das pessoas, entretanto, tende a ter o que chamamos de um cronotipo adaptável, ou intermediário.

O jet lag é um desajuste temporário dos ritmos biológicos, vivido por pessoas que fazem viagens transmeridionais, em que há rápidas modificações do fuso horário. Também, é o caso de trabalhadores por turno, principalmente aqueles em escalas de trabalho alternadas.

Privação, restrição e fragmentação do sono não se referem exatamente ao mesmo fenômeno, apesar de levarem à consequências semelhantes, dependendo da duração ou momento em que acontecem.

Quando há PRIVAÇÃO DE SONO, uma pessoa fica 24 ou mais horas sem dormir, ou não dorme o suficiente para  completar ao menos um ciclo de sono (em média 90 min). 

Na RESTRIÇÃO DE SONO, dorme-se menos tempo do que o razoável para se manter em boa capacidade funcional - 5 horas ou menos para a maioria das pessoas.

E quando há FRAGMENTAÇÃO DO SONO, a pessoa acorda muitas vezes, e tem muitos micro-despertares, que duram entre 15 e 30 segundos, sem a consciência que despertou.

É possível que uma pessoa se prive e restrinja o sono, e também o tenha fragmentado.

Com MOTORISTAS PROFISSIONAIS isso costuma acontecer, dirigem por horas a fio, um dia se privando e no outro restringindo o sono. Passam muito tempo sentados, fazendo uma atividade que por si só dá sono. Sentem a necessidade de ingerir alimentos energéticos, ricos em açucares e gorduras. Acabam ganhando peso e aumentando a probabilidade de sofrerem de apneia do sono, que leva à fragmentação do sono.

 

A apneia é o principal distúrbio respiratório do sono. Está muito relacionada à obesidade, à idade e é mais comum em homens, pois possuem uma via aérea maior do que as mulheres, com mais chances de fechar completa ou parcialmente durante o sono, quando a musculatura está toda relaxada, levando ao ronco e pausas respiratórias. 

Classificamos um evento de apneia ou de hipopneia quando o fluxo de ar se interrompe por um período de pelo menos 10 segundos, levando a um despertar ou à queda dos níveis de oxigênio no sangue. 

 

Respiração normal

Via aerea aberta

Ronco

Parcialmente fechada

Apneia

Completamente fechada

Há pessoas que passam boa parte do sono tendo apneias. Consideramos um transtorno grave quando o número de eventos ultrapassa 30 por hora. Então, é relevante que ela seja avaliada e tratada.

Entre os sintomas mais comuns dos transtornos respiratórios estão sonolência, irritabilidade, cansaço, fadiga, fraqueza, alterações de humor, entre outros.

 

Um transtorno respiratório do sono não tratado pode aumentar significativamente o risco de outras doenças. Com o tempo, pode levar ao desenvolvimento de doenças crônicas, como a hipertensão e o diabetes. E em quem já tem essas doenças, seja por fatores genéticos ou outras causas, pode aumentar a chance de infarto e derrame.

 
 

Respirar mal realmente é muito ruim, e durante o sono é pior ainda. Não à toa, os transtornos respiratórios do sono também se relacionam à ocorrência de depressão. Além da apneia do sono, há a síndrome da resistência das vias aéreas, o próprio ronco, entre outros.

Algumas pessoas são mais sensíveis aos efeitos da limitação do fluxo de ar durante o sono e sofrem mais intensamente as consequências da fragmentação do sono. Outras, por outro lado, podem ter milhares de apneias sem sentir consequências, como a sonolência ou o cansaço. O problema, entretanto, são os efeitos de longo prazo. É  importante investigar ronco e apneia, principalmente quando incomodam aqueles que amamos.  

VOCÊ JÁ FEZ UMA POLISSONOGRAFIA?

 

É o principal exame de avaliação e diagnóstico dos distúrbios do sono.

 

Investiga uma série de comportamentos e atividades do organismo durante o sono, por sensores que são posicionados pela superfície do corpo, de forma não invasiva.

 

Pode ser realizada em qualquer faixa-etária, até mesmo em recém-nascidos.

Onde se faz um exame de polissonografia?

 

Normalmente em laboratórios ou clínicas de sono, mas também pode ser feita em casa ou em ambiente hospitalar, e incluir diferentes procedimentos e montagens, que devem ser definidos por um médico.

 

A polissonografia feita em casa, por exemplo, pode ser mais simples, com menos sensores. Costuma ser indicada para a avaliação de transtornos respiratórios, ou em casos de doenças mais graves.

 

Cada eletrodo e sensor posicionado na superfície do corpo gera um sinal. As posições na FIGURA DA CABEÇA (C3, C4, A1, A2, etc) são combinadas em dupla para formar canais, que representam a diferença de potencial elétrico entre dois pontos.

Em uma tela de computador vê-se 30 segundos de registro de sono. Assim o sono é 'estagiado' por um analista de polissonografia, de 30 em 30 segundos.

Para a análise de eventos respiratórios, ou da ritmicidade dos movimento de pernas, por exemplo, o registro (ou 'a tela') pode ser comprimido de 2 em 2 minutos, para facilitar a visualização e contagem de eventos.

 
Ao fundo, a imagem é uma tela de computador com o registro de 30 segundos de sono. Os primeiros 4 canais são do eletroencefalograma, com o ritmo da atividade elétrica cerebral. Como é uma tela durante um episódio de sono REM, vê-se um ritmo rápido e dessincronizado. Os 2 canais que estão demarcados com a caixa vermelha ilustram o movimento de olhos que ocorre durante o REM, dos eletrodos posicionados nos olhos.
O canal em verde mostra batimentos cardíacos, pelo eletrocardiograma.
Os canais em ondas registram o fluxo aéreo, por sensores na boca e nariz, e por cintas abdomnal e torácica. 
 
E, o canal com reta achatada (Chin), logo abaixo aos canais com os movimentos dos olhos, vem de sensores colocados no queixo e demostra a ausência de tônus, ou atonia muscular do sono REM
 

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