• Ligia Cortellazzi

Coberta de palavras: esquentando o sono com a literatura


Clarice iniciou produções da literatura infantil, antes de tudo, por “pedido-ordem” de seu primogênito Paulo que, na época, tinha aproximadamente 6 anos. Em última entrevista à TV Cultura, no ano de seu falecimento, em 1977, declara que entre os hiatos das novelas sentia a vida intolerável, “oca”.

Ficava tempos “vegetando” ou “se salvava”, lançando-se a escrever para crianças. Aqui uma escuta curiosa: o lugar dessa escrita. Falar, escrever para crianças parece ser seguro, um lugar de alívio, conforto e não me vem outra palavra a não ser o lugar de amor. Quando Clarice escrevia literatura infantil, nestes casos, ela destinava catexia costurando caminhos de palavras e estórias ao seu suposto interlocutor da completude.

“(...) quando me comunico com criança é fácil porque sou maternal, quando me comunico com o adulto me comunico com o mais secreto de mim mesma (...)”

O Mistério do Coelho Pensante, publicado em 1967, estava na gaveta da residência de Clarice que não queria publicá-lo. Ela adverte nas primeiras linhas do livro “escrita para exclusivo uso doméstico”. Contudo, acabou cedendo frente à demanda da editora. Houve mais duas publicações em vida - A Mulher que Matou os Peixes (1968) e A Vida Íntima de Laura (1974) e duas póstumas- Quase de Verdade (1978) e Como Nasceram as Estrelas: Doze Lendas Brasileiras (1987).

Diante dessa pequena e preciosa obra, convido a permissão do deleite! Sentados em uma poltrona, , embaixo de uma árvore (no quintal), uma cadeira ou almofada puxada na varanda e, porque não, inseri-lo como parte integrante da higiene do sono da criança, ou seja, a leitura ao pé da cama pode ser uma ferramenta provedora do bem estar à preparação para o sono. Como o ninar, a voz embebecida por convite a imagens e situações pode preparar o corpo e a alma para o descanso, além da aproximação afetiva dos pares, que muitas vezes só conseguem decantar o tempo juntos nesses contextos.

De maneira geral, os enredos dessas estórias possuem protagonistas animais (detalhe: geralmente favorável ao gosto do pequeno freguês!) . No caso de O Coelho Pensante, sua narrativa está em terceira pessoa, como se escutássemos a voz da escritora/mãe contando, indagando, embalando o desenrolar de fatos e pensamentos ao seu filho.

Como toda leitura clariceana é provocante, pode causar estranhamento por não tratar usualismos. Dica: é preciso que o adulto leia antes, goste da estória e acredite que ela possa ser adequada para o momento da preparação para o sono, porque sua leitura deve ter tom fluído, intenção à tranquilidade e amor. É preciso ter a liberdade de uma escolha prazerosa, ela impactará no melhor e mais adequado uso do livro e promoverá o aconchego para a entrega, aos poucos, ao sono que contará outras estórias...

Link para assistir a entrevista com Clarice: www.youtube.com/watch?v=ohHP1l2EVnU

Link para o PDF de 'O Coelho Pensante': http://portugues.seed.pr.gov.br/arquivos/File/omisterio.pdf

Caso queira guardar, ou pode conferir o texto na integra, a seguir:

O MISTÉRIO DO COELHO PENSANTE

Clarice Lispector

Ilustrações Marina Massarani ROCCO

Jovens leitores,

Esta história só serve para criança que simpatiza com coelho. Foi escrita a pedido-ordem de Paulo, quando ele era menor e ainda não tinha descoberto simpatias mais fortes. O mistério do coelho pensante é também minha discreta homenagem a dois coelhos que pertenceram a Pedro e Paulo, meus filhos. Coelhos aqueles que nos deram muita dor de cabeça e muita surpresa de encantamento. Como a história foi escrita para exclusivo uso doméstico, deixei todas as entrelinhas para as explicações orais. Peço desculpas a pais e mães, tios e tias, e avós, pela contribuição forçada que serão obrigados a dar. Mas pelo menos posso garantir, por experiência própria, que a parte oral desta história é o melhor dela. Conversar sobre coelho é muito bom. Aliás, esse “mistério” é mais uma conversa íntima do que uma história. Daí ser muito mais extensa que o seu aparente número de páginas. Na verdade só acaba quando a criança descobre outros mistérios.

C.L.

Pois olhe, Paulo, você não pode imaginar o que aconteceu com aquele coelho. Se você pensa que ele falava, está enganado. Nunca disse uma só palavra na vida. Se pensa que era diferente dos outros coelhos, está enganado. Para dizer a verdade, não passava de um coelho. O máximo que se pode dizer é que se tratava de um coelho muito branco.

Por isso tudo é que ninguém nunca imaginou que ele pudesse ter algumas idéias. Veja bem: eu nem disse “muitas idéias”, só disse “algumas”. Pois olhe, nem de algumas achavam ele capaz.

A coisa especial que acontecia com aquele coelho era também especial com todos os coelhos do mundo. É que ele pensava essas algumas idéias com o nariz dele. O jeito de pensar as idéias dele era mexendo bem depressa o nariz. Tanto franzia e desfranzia o nariz que o nariz vivia cor-de-rosa. Quem olhasse podia achar que pensava sem parar. Não é verdade. Só o nariz dele é que era rápido, a cabeça não. E para conseguir cheirar uma só ideia, precisava franzir quinze mil vezes o nariz.

Pois bem. Um dia o nariz de Joãozinho — era assim que se chamava esse coelho — um dia o nariz de joãozinho conseguiu farejar uma coisa tão maravilhosa que ele ficou bobo. De pura alegria, seu coração bateu tão depressa como se ele tivesse engolido muitas borboletas. Joãozinho disse para ele mesmo:

— Puxa, eu não passo de um coelho branco, mas acabo de cheirar uma ideia tão boa que até parece ideia de menino!

E ficou encantado. A ideia que tinha cheirado era tão boa quanto o cheiro de uma cenoura fresca. Joãozinho começou então a trabalhar nessa ideia. E para isso precisou mexer tanto o nariz que dessa vez o nariz ficou quase vermelho. Coelho tem muita dificuldade de pensar, porque ninguém acredita que ele pense. E ninguém espera que ele pense. Tanto que a natureza do coelho até já se habituou a não pensar. E hoje em dia eles todos estão conformados e felizes. A natureza deles é muito satisfeita: contanto que sejam amados, eles não se incomodam de ser burrinhos.

Desconfio que você não sabe bem o que quer dizer natureza de coelho. Natureza de coelho é o modo como o coelho é feito. Por exemplo: a natureza dele dá mais filhinhos do que a natureza das pessoas. É por isso que ele é meio bobo para pensar, mas não é nada bobo quando se trata de ter filhinhos. Enquanto um pai e uma mãe têm devagar um só filho-gente, o coelho vai tendo muitos, assim, como quem não quer nada. E bem depressa, igual como franze e desfranze o nariz.

Natureza de coelho é também o modo como ele adivinha as coisas que fazem bem a ele, sem ninguém ter ensinado. Natureza de coelho é também o modo que ele tem de se ajeitar na vida. Como eu ia contando, Joãozinho começou a trabalhar na ideia. A ideia era a seguinte: fugir da casinhola todas as vezes que não houvesse comida na casinhola.

Você talvez esteja decepcionado, Paulinho. Você talvez esperasse outro tipo de ideia, você que tem tantas. Mas acontece que esta história é uma história real. E todo mundo sabe que essa ideia é exatamente a espécie de ideia que um coelho é capaz de cheirar. Pois a natureza dele só é esperta para as coisas de que ele precisa.

Como eu ia contando, Joãozinho lembrou-se de fugir cada vez que faltasse comida na casinhola. Mas o problema era o seguinte: como é que ia poder sair lá de dentro? A casinhola tinha grades muito estreitas, e joãozinho, além de branco, era gordo. É claro que não podia passar pelas grades. O único modo de se abrir a casinhola era levantando o tampo. E o tampo, Paulo, era de ferro pesado, só gente é que sabia levantar.

Durante dois dias Joãozinho franziu e desfranziu o nariz milhares de vezes para ver se cheirava a solução. E a ideia finalmente veio. Dessa vez, Paulo, foi uma ideia tão boa que nem mesmo criança, que tem idéias ótimas, pode adivinhar.

A ideia foi a seguinte: ele descobriu como sair da casinhola. E, se bem pensou, melhor fez. De repente os donos do coelho viram o coelho na calçada, gritaram, correram atrás dele, chamaram as outras crianças da rua — e todas juntas cercaram Joãozinho e finalmente conseguiram prendê-lo de novo.

Você na certa está esperando que eu agora diga qual foi o jeito que ele arranjou para sair de lá. Mas aí é que está o mistério: não sei! E as crianças também não sabiam. Porque, como eu lhe disse, o tampo era de ferro pesado. Pelas grades? Nunca! Lembre-se de que Joãozinho era um gordo e as grades eram apertadas.

Enquanto isso, as crianças, que não têm natureza boba, foram notando que o coelho branco só fugia quando não havia comida na casinhola. De modo que nunca mais se esqueceram de encher o prato dele. E a vida, para aquele coelho branco, passou a ser muito boa. Comida era o que não lhe faltava.

Mas, Paulo, acontece que Joãozinho, tendo fugido algumas vezes, tomou gosto. E passou a fugir sem motivo nenhum: só mesmo por gosto. Comida, até sobrava. Mas ele sentia uma saudade muito grande de fugir. Você compreende, criança não precisa fugir porque não vive entre grades. É claro que o coração de Joãozinho batia feito louco quando ele fugia. Mas faz parte de ser coelho ter o coração muito assustado. Assim como faz parte da natureza do coelho farejar idéias com o nariz.

Pouco a pouco a vida de Joãozinho passou a ser a seguinte: comer bem e fugir, e sempre de coração batendo. Um programa ótimo. Ele fugia, as crianças o agarravam, ele tinha comida, ele era muito feliz. Era tão feliz que às vezes seu nariz se mexia tão depressa como se ele estivesse cheirando o mundo inteiro. Por falar nisso, quero lembrar a você que o mundo cheira muito mais para um coelho do que para nós. Nariz de coelho vale mais para ele do que nariz de gente vale para a gente. Você não reparou que nariz de coelho parece estar sempre recebendo e mandando telegramas urgentes? É porque ele compreende as coisas com o nariz. Isso não quer dizer que a natureza do coelho seja melhor do que a nossa. Cada natureza tem suas vantagens.

Vou te dizer como é que o mundo é feito. É assim: quando se tem natureza de coelho, a melhor coisa do mundo é ser coelho, mas quando se tem natureza de gente não se quer outra vida. Você acha, Paulo, que os donos de Joãozinho zangavam com ele? Zangavam, sim. Mas zangavam como pai e mãe zangam com os filhos: zangavam sem parar de gostar. Aquele coelho, então, nem se precisava ser parente para gostar dele. Vou te dizer: Joãozinho tinha cara de bobão e era lindo. Dava até vontade de apertar ele um pouco. Não demais, porque Joãozinho ficava logo espantado. Coelho é como passarinho: se assusta com carinho forte demais, fica sem saber se é por amor ou por raiva. A gente tem que ir devagar para ele ir se acostumando, até que ele ganha confiança. Que é que você acha que Joãozinho fazia quando fugia?

Às vezes penso que fugia para ver a namorada dele. A namorada era uma coelha muito da enjoada e muito da caprichosa, que vivia dizendo para Joãozinho:

— Se você não vier me ver, eu te esqueço.

Era mentira, porque ela adorava o coelho dela, mas com esse truque a coelha ia arrumando a vida dela. Não era por maldade que ela dizia isso para joãozinho, mas natureza de coelha é assim. E o modo de coelha gostar é um modo sabido. Aliás quase toda natureza de namorada se parece um pouco. Acho também que Joãozinho fugia porque cada vez ele tinha mais filhinhos e gostava de ir fazer carinho nos filhinhos. Os filhinhos eram todos gordos, pequenos e bobos, e todos eles tinham natureza de coelho.

Olhe, Paulinho, se para as pessoas é bom gostar de coelho, imagine então como deve ser ótimo gostar de coelho quando se é pai ou mãe dele. Aí nem se fala. Às vezes também joãozinho fugia só para ficar olhando as coisas, já que ninguém levava ele para passear. Nessa hora é que virava mesmo um coelho pensante. Foi olhando as coisas que seu nariz adivinhou, por exemplo, que a Terra era redonda.

Só há dois modos de descobrir que a Terra é redonda: ou estudando em livros, ou sendo feliz. Coelho feliz sabe um bocado de coisas. Outra coisa que o nariz dele descobriu é que as nuvens se mexem devagar e às vezes formam coelhões no céu. Nas suas fugidas também descobriu que há coisas que é bom cheirar mas que não são de se comer. E foi aí que ele descobriu que gostar é quase tão bom como comer.

Bem, Paulo — mas eu continuo a lhe perguntar o seguinte: como é que o coelho branco saía de dentro das grades?

Paulinho, essa é uma verdadeira história de mistério. É uma história tão misteriosa que até hoje não encontrei uma só criança que me desse uma resposta boa. É verdade que nem eu, que estou contando a história, conheço a resposta. O que posso lhe garantir é que não estou mentindo: Joãozinho fugia mesmo.

Você me pediu para eu descobrir o mistério da fuga do coelho. Tenho tentado descobrir do seguinte modo: fico franzindo meu nariz bem depressa. Só para ver se consigo pensar o que um coelho pensa quando franze o nariz.

Mas você sabe muito bem o que tem acontecido. Quando franzo o nariz, em vez de ter uma ideia, fico é com uma vontade doida de comer cenoura. E isso, é claro, não explica de que modo Joãozinho farejou um jeito de fugir das grades. Se você quiser adivinhar o mistério, Paulinho, experimente você mesmo franzir o nariz para ver se dá certo. É capaz de você descobrir a solução, porque menino e menina entendem mais de coelho do que pai e mãe. Quando você descobrir, você me conta. Eu é que não vou mais franzir meu nariz, porque já estou cansada, meu bem, de só comer cenoura.

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